Pretexto

Posted in Vôos Noturnos on August 13, 2009 by Carol

Verso, poema, poesia
é tudo pretexto.
O que se escreve sem a pena,
tudo que inflama, arde, dói,
esse aí, sim,
meu desletrado texto!

Fomes e fomes

Posted in Vôos Noturnos on July 30, 2009 by Carol

Mordia.
Dias comidos por atribulações,
dias engasgados, mastigados.
Fatigada fico com tanta esganação.

Mordido
o tempo esquecido
nos pneus lambendo asfalto,
no cansaço dos olhos secos

e famintos por uma lágrima
sofrida, que fosse das escondidas,
ardidas
alguma só que botasse o suor das
horas perdidas.

Mordida
tal qual carne viva e exposta,
vejo-me contraída num mundo-sangue,
mundo-cão, nas pressas que não sei
e sempre estão a perturbar a orientação

desta que fala em errôneas palavras,
rimas, ironias, paixões.

Dia infernal, e neste inferno saboreio.
Degusto na satisfação e no prazer
oculto dos presentes inesperados,
das vitórias desacreditadas.

Degusto a suculenta e apimentada,
da minha e tua carne tirada,

Esta mordida.

Sacratus Secretus

Posted in Vôos Noturnos on June 29, 2009 by Carol

Hoje seriam fotos, textos, tudo em branco e preto e com a cor mais plena, mais íntima de todos os tempos. Mas esta cor tão minha é sagrada. Secretamente, espalhei cores pelos ventos em que passei, levei em silêncio essa jura que fiz. Então fica tudo latente, guardado, gravado nas fotografias que não tirei, as palavras que não ousei pronunciar. Pode-se dizer sequer houve, afinal é tão meu que será mentira fora de mim. Entendes? Se ponho tudo isto assim, profanado será este segredo. Imagens serão falsas disto que me veio de fora para dentro, mas é meu, pois o mundo o rejeitou. Imagens, palavras, não posso, não consigo. Mas de alguma forma, sou pouco confiável. E se o véu do esquecimento envolver o meu silêncio, pois me previno: escrevo o vestígio, o topor, escrevo sinal disto que não digo, não minto, não volta. Mas já disse a quem compartilhou um gesto singelo, disse a quem olhou de perto algo deste tudo. Tudo. Eles secretamente notaram.
Há pó de minha verdade correndo novos ventos.

Não calo

Posted in Vôos Noturnos on June 29, 2009 by Carol

Num abril, bloqueei meus olhos para as linhas de minhas mãos. Não creio, não me fazem destino onde não há. Faço destino?
Olhei neste junho as mãos de velha:
lisas como vida já passada. Antes calos, antes linhas.
Mas que moça madame esta que esqueceu de empunhar as penas!

Felinos famintos ou Retrato Nº2

Posted in Vôos Noturnos on June 14, 2009 by Carol

Outro dia
era livre passarinho:
Bem-te-vi
te amei.

Papagaio virei,
me repeti:
AMOR amorAmor!

Era presa num ninho.
Você leão
me comeu.

Amor Amor…
Fome também sinto!

Nem ninho, nem asa!
Largadas penas,
mostrei as garras.

Aí você me pintou:
rugidos, gemidos…
Pantera cor-de-rosa.

Cinzas

Posted in Vôos Noturnos on June 7, 2009 by Carol

Lá fora alguém deve chamar
o nome antigo que me foi dado.
Ouso não escutá-lo.

Lá fora meus olhos
não mudam de cor,
muda quem os enxerga.

Ouso nem olhar…
pois o que há para ser visto?
O que foge da impressão repetida,
o eterno déjà vu vivido a cada dia?

Teimosia, ousadia?
Chame de arredia esta que vos fala,
então poderei olhar-te:

não serão enternecidos olhos pálidos,
mansos como o tempo que se foi.
Antes olhos vivos, outras cores:

coisas perecíveis que nos tocam,
queimam e apaixonam.

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